Dê autonomia para uma criança e deixe que ela aprenda muito mais Pais e professores devem orientar as escolhas e não fazê-las pelas crianças. Mas como isso funciona na prática?

Escrito por: Guilherme Carvalho

A educação está evoluindo. Finalmente parece que a sala de aula tradicional está deixando de ser como era no século passado. Os alunos, especialmente as crianças, já não aceitam mais aulas chatas em que apenas os professores falam enquanto elas “aprendem”. Os professores também estão mudando. Os mais modernos reconhecem que uma boa aula é aquela que deixa seus alunos engajados e querendo continuar na atividade. Certa vez ouvi de um professor que uma de suas maiores alegrias era ouvir de um dos alunos um pedido para não terminar a aula. As minhas aulas são bem diferentes. Esta semana recebi um questionamento de um pai sobre qual era o conteúdo do curso. Ele achou estranho ao perguntar ao filho como estava o curso e a criança responder falando apenas da “parte lúdica”. Certamente ele estava esperando uma resposta com uma lista de itens trabalhados em sala. Afinal, para muitos, a sala de aula não combina com diversão. Mas minha resposta também foi diferente da que ele esperava. Entreguei para ele um relatório sobre seu filho, mostrando como ele foi capaz de construir um conhecimento que certamente levará para a vida. Falei sobre o projeto que estamos trabalhando em sala e como ele se conecta com vários conhecimentos esperados ao final do curso. A tal lista de itens veio conectada com a prática no projeto. Junto a isso, entreguei reflexões comportamentais e detalhadas sobre a criança, sua interação com os colegas, com tarefas simples ou complexas, ou com o ambiente. Este tipo de metodologia favorece esse conhecimento profundo dos alunos. Já perdi as contas de quantos pais estranham seus filhos no dia da apresentação final dos projetos. Eles deixam de ser tímidos, criam coisas extraordinárias, superam as expectativas. Isso é motivante para eles. Por incrível que pareça, os pais subestimam seus filhos.

“Como assim ele quer convidar a família toda para ver?” “Olha como ele está desenrolado!” “Esse é mesmo meu filho?” “E em casa ele não quer falar…”

Autonomia Orientada

Por mais que possa parecer diferente, é exatamente a mesma criança. E o que favorece este comportamento tão distinto? É o que chamo de Autonomia Orientada. super-hero-kidIsso mesmo. A criança precisa ter liberdade para fazer o que gosta e como gosta. O papel dos pais e educadores é orientar essas escolhas, não fazer por eles. Devemos oferecer desafios e estimular que elas criem as soluções. Mas atenção, sozinha a criança provavelmente não será capaz de avançar por falta de motivação. Crianças precisam estar conectadas com outras pessoas, mesmo na era da tecnologia. Por isso, a autonomia para escolher precisa estar associada a orientação do professor ou pais. As crianças precisam de uma referência, uma pessoa com credibilidade diante delas para respeitar. Isso faz parte do processo de aprendizagem. Na escola, essa referência muitas vezes é assumida por alguns colegas de classe, mas normalmente deve ser assumida pelo professor. Este deve ter a sensibilidade para entender as dificuldades das crianças e perceber qual a melhor forma de ajudá-las diante de alguma dificuldade. Vale ressaltar que algumas vezes a melhor forma de ajudar é deixá-las se virar sem interferir. O orientador lança um desafio que precisa ser assumido pelo grupo para seguir adiante. Quando isso acontece, o comprometimento é máximo e eles se divertem. Os conceitos do curso precisam estar em torno do desafio. Eles devem aplicá-los para conseguir um melhor resultado. Orientador deve planejar como transformar o desafio numa gincana com etapas e prêmios.

Case: Desafio da Feira de Negócios

Recentemente, no curso Jovens Empreendedores, propus o desafio de uma Feira de Negócios. As crianças precisariam criar empresas para vender produtos na escola. Para isso, discutiram ideias, fizeram pesquisa de mercado, identificaram os melhores fornecedores, pesquisaram a concorrência, calcularam os preços de seus produtos, criaram marcas, etc. Ao final, cada grupo virou uma empresa durante 2 horas, abordando e vendendo seus produtos para todos que passavam pela escola. Alguns lucraram, outros ficaram no prejuízo financeiro, mas todos aprenderam muito. Com autonomia, elas escolheram tudo como fariam. Como orientador, conversei sobre algumas decisões que poderiam ser melhores e fomos ajustando o projeto de cada grupo para o grande dia. Interessante observar como estão animadas e nervosas com o que pode acontecer. É algo novo, é algo instigante, é isso que elas gostam e é assim que elas aprendem mais. Na aula seguinte ao evento, fizemos uma rodada de reflexão sobre os acertos, erros e aprendizados. Estou certo de que estas crianças estão mais preparadas para os desafios da vida a cada projeto que construímos juntos.jovens-empreendedores-1 jovens-empreendedores-2jovens-empreendedores-3jovens-empreendedores-4